Como fazer o repasse dos profissionais na clínica multidisciplinar

Percentual, valor fixo ou sublocação de sala: os modelos de repasse em clínicas de terapia, como calcular cada um, os cuidados com impostos e o risco trabalhista.

Relatório de repasse por profissional com a divisão entre profissional e clínica

Toda clínica com mais de um profissional esbarra na mesma pergunta: quanto do valor da sessão fica com o terapeuta e quanto fica com a clínica? Errar para um lado afasta bons profissionais. Errar para o outro faz a clínica pagar para existir. E um modelo mal desenhado ainda pode virar processo trabalhista.

Este guia mostra os três modelos mais usados, como calcular cada um e os cuidados que valem para todos.

Os três modelos de repasse

1. Percentual da sessão

O profissional recebe uma porcentagem de cada sessão realizada. É o modelo mais comum em clínicas multidisciplinares, e os percentuais costumam ficar entre 40% e 70%, dependendo do que a clínica oferece: sala equipada, recepção, captação de pacientes, sistema, materiais, supervisão.

  • Vantagem: clínica e profissional ganham juntos quando a agenda enche, e o risco de agenda vazia é dividido.
  • Atenção: defina por escrito se o percentual incide sobre o valor bruto ou sobre o valor líquido (depois de impostos e taxas). A diferença é grande, como mostra o exemplo abaixo.

2. Valor fixo por atendimento

O profissional recebe um valor fixo por sessão realizada (por exemplo, R$ 90), independentemente do preço cobrado do paciente.

  • Vantagem: previsível para os dois lados e simples de conferir. Funciona bem quando a clínica tem preços diferentes por convênio, pacote ou modalidade.
  • Atenção: quando a clínica reajusta o preço e o valor fixo fica parado, o profissional percebe e a relação desgasta. Combine a regra de reajuste junto.

3. Sublocação de sala (o profissional recebe direto)

O profissional atende os próprios pacientes, recebe deles diretamente, emite os próprios documentos fiscais e paga à clínica um valor pelo uso da estrutura: por turno, por hora ou por mês.

  • Vantagem: a clínica não fatura o valor das sessões, então não paga imposto sobre elas, e o vínculo é claramente de locação.
  • Atenção: a clínica perde o controle do preço e da agenda, e a receita dela vira aluguel. Funciona melhor para profissionais com carteira própria de pacientes.

Muitas clínicas misturam modelos: percentual para os pacientes que a clínica capta e sublocação para os que o profissional traz.

Exemplo: bruto ou líquido faz diferença

Uma sessão de R$ 200, com a clínica recebendo o valor cheio e emitindo a nota:

Repasse de 50% sobre o bruto Repasse de 50% sobre o líquido
Valor da sessão R$ 200,00 R$ 200,00
Impostos (6%) − R$ 12,00 − R$ 12,00
Taxa de recebimento (2%) − R$ 4,00 − R$ 4,00
Base do repasse R$ 200,00 R$ 184,00
Repasse ao profissional R$ 100,00 R$ 92,00
Fica com a clínica R$ 84,00 R$ 92,00

Os mesmos “50%” geram uma diferença de R$ 8 por sessão. Em 300 sessões por mês, são R$ 2.400 que mudam de lado. Nenhum dos dois é errado: o importante é estar escrito e ser igual para todos.

E lembre que os R$ 84 ou R$ 92 da clínica ainda precisam pagar aluguel, recepção, sistema, contador e marketing. Para saber se o percentual fecha a conta, use a calculadora de precificação: ela mostra o repasse máximo que mantém a margem que você quer.

O imposto incide sobre o quê?

Depende de quem fatura:

  • A clínica recebe e emite a nota da sessão inteira: o imposto da clínica incide sobre os R$ 200, mesmo que metade vá para o profissional. Por isso o percentual sobre o líquido é comum nesse modelo.
  • O profissional fatura direto (sublocação, ou cada um emitindo o próprio documento): a clínica só tem receita sobre o que cobra do profissional.

Cada caso tem um enquadramento fiscal próprio. Converse com o seu contador antes de escolher, e veja também o nosso guia sobre nota fiscal e Receita Saúde para terapeutas.

O cuidado que ninguém pode ignorar: vínculo empregatício

Chamar o profissional de “parceiro” e assinar um contrato de prestação de serviços não basta. A Justiça do Trabalho olha para como a relação funciona na prática. Se estão presentes subordinação (a clínica dá ordens, controla horário, exige uniforme, cobra produtividade), habitualidade, pessoalidade e pagamento, o vínculo de emprego pode ser reconhecido, com carteira assinada, férias, 13º e demais direitos retroativos.

Foi o que aconteceu num caso julgado pelo TRT da 23ª Região (Mato Grosso) em 2023: uma psicóloga com contrato de autônoma atendia em dias e horários definidos pela clínica, usava uniforme fornecido por ela, precisava repor horas e recebia valor fixo independentemente do número de pacientes. O tribunal reconheceu o vínculo de emprego.

Diferente do setor de beleza, que tem a Lei do Salão-Parceiro (Lei nº 13.352/2016), clínicas de terapia não têm uma lei específica para esse tipo de parceria. Alguns cuidados que reduzem o risco:

  • O profissional define a própria agenda e pode recusar pacientes.
  • A remuneração varia com a produção, não é um salário disfarçado.
  • Não há exclusividade nem controle de jornada.
  • O contrato descreve a realidade, e a realidade segue o contrato.

Se a clínica precisa de horário fixo, exclusividade e subordinação, o caminho mais seguro é a contratação CLT. Na dúvida, consulte um advogado trabalhista antes de definir o modelo.

O que colocar no contrato de parceria

  • Modelo de repasse (percentual, fixo ou locação) e a base de cálculo (bruto ou líquido)
  • O que acontece com faltas, cancelamentos e sessões de pacote não usadas
  • Data de fechamento e de pagamento do repasse
  • Quem emite o documento fiscal da sessão
  • Regra de reajuste
  • Responsabilidade pelo prontuário e pela guarda dos registros (veja o que o CFP exige no prontuário)
  • Prazo de aviso para encerrar a parceria e o que acontece com os pacientes em atendimento

Fechamento do mês sem planilha

O repasse dá trabalho porque depende de detalhes: quais sessões foram realizadas, quais foram faltas cobradas, quais vieram de pacote, qual a regra de cada profissional. Errar um item gera desconfiança dos dois lados.

No repasse para profissionais da Terapee, cada profissional tem a própria regra (percentual ou valor fixo). O relatório mostra, por atendimento e no total do período, o valor da sessão, o repasse e o que ficou com a clínica. Faltas entram ou não conforme você registrou: falta cobrada do paciente entra, falta justificada não. O fechamento sai em PDF ou Excel, com o detalhe por paciente, para o profissional conferir de onde veio cada valor.

Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de contador e advogado.

Sobre a Terapee

A Terapee é um sistema de gestão feito para clínicas de terapia no Brasil: psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, ABA e clínicas multidisciplinares. Reúne agenda, prontuário eletrônico, lembretes automáticos no WhatsApp, cobrança recorrente, telemedicina e emissão de NFS-e em um só lugar, direto no navegador e no celular.

Atendemos desde quem trabalha sozinho até clínicas com equipes grandes. Neste blog, publicamos conteúdo prático sobre gestão, finanças, agenda, prontuário e atendimento online para quem vive a rotina de uma clínica.